Numa sala de máquinas, o ruído de fundo já é hostil. Mesmo assim, o alarme geral precisa furar esse barulho: pelo menos 80 dB(A), 10 dB(A) acima do ruído ambiente, ou ninguém ouve a tempo. Isso é comunicação em ambientes críticos: garantir que uma ordem ou um alarme cheguem a quem precisa, mesmo quando o ambiente inteiro trabalha contra.
O que é um ambiente crítico?
Um ambiente crítico é aquele em que uma falha pode ter consequências muito maiores do que o problema que a provocou.
Plataformas, embarcações, óleo e gás, plantas industriais e energia têm três coisas em comum: decisões em segundos, equipes que dependem umas das outras e um ambiente físico que atrapalha a comunicação: ruído, distância, espaço confinado.
Por que a comunicação é decisiva nesses ambientes?
Porque falha de comunicação se propaga: uma ordem que não chega vira decisão tomada tarde, e decisão tarde pode virar incidente.
O LSA Code, seção 7.2.1, estabelece os requisitos mínimos para o sistema de alarme geral de emergência. O alarme deve atingir pelo menos 80 dB(A) nos espaços internos e externos e estar pelo menos 10 dB(A) acima do ruído ambiente. Na posição de dormir dos camarotes, o nível mínimo é de 75 dB(A). A SOLAS III/20.6 estabelece ainda o teste semanal do alarme geral.
Para o sistema de Public Address, os requisitos são distintos. De acordo com o LSA Code, seção 7.2.2, as mensagens de voz devem atingir pelo menos 75 dB(A) nos espaços internos e 80 dB(A) nos espaços externos, além de permanecer acima dos níveis de interferência da fala previstos para cada ambiente.
A SOLAS Chapter III trata separadamente os sistemas de comunicação. A Regulation 6.4 aborda o General Alarm (GA), enquanto a Regulation 6.5 trata do Public Address (PA). Para navios de passageiros, a SOLAS III/6.5 estabelece a instalação de um sistema de Public Address capaz de transmitir mensagens de emergência de forma audível nos espaços previstos.
PA e GA, portanto, são requisitos distintos, embora possam estar integrados em uma mesma infraestrutura. O GA tem a função de emitir o alarme geral de emergência, enquanto o PA permite a transmissão de mensagens de voz.
No Brasil, o item 37.11.7 da NR-37 exige que cada extremidade de passarela estabilizada entre plataforma e embarcação adjacente tenha sinalização e alarme automático sonoro e luminoso, ou vigia treinado com meio de comunicação com a plataforma.
O que sustenta um sistema de comunicação confiável nesses ambientes?
Confiabilidade
O sistema precisa operar exatamente no momento em que tudo ao redor está sob estresse, que costuma ser também o momento em que energia instável, ruído extremo ou condições climáticas mais ameaçam seu funcionamento. Isso exige projeto pensado para resistir à falha, não apenas para operar bem em condição normal.
Segurança
Parte da própria camada de segurança da operação. Alarmes dependem de funcionar sem interrupção, como mostram os parâmetros normativos acima.
Integração
Na prática, aparece como retrofit e site survey: adaptar um sistema já instalado à infraestrutura atual, sem interromper a operação.
Continuidade operacional
Em ambientes críticos, qualquer interrupção do sistema de comunicação pode gerar impacto operacional e custo direto, inclusive durante intervenções de manutenção.
“O que separa um sistema que funciona numa emergência de um que falha é manutenção preditiva e redundância de componentes. Uma falha simples precisa ser mitigada rapidamente, antes que provoque uma sequência de falhas em cadeia”, diz Belmiro.
Quais os desafios específicos das operações navais e offshore?
O ruído praticamente constante (motores, geradores, vento, mar) compete o tempo todo com qualquer tentativa de comunicação verbal direta, e a distância física entre áreas de trabalho, como ponte de comando, sala de máquinas, convés e área de processo, costuma ser maior do que em operações terrestres, muitas vezes sem linha de visão entre quem precisa se comunicar.
Some-se a isso o isolamento: uma embarcação ou plataforma não tem, ao lado, uma infraestrutura de apoio para acionar em caso de falha. Estruturas metálicas e áreas classificadas como de risco de explosão impõem, ainda, uma exigência que ambientes controlados não têm: equipamento certificado para a zona em que vai operar, segundo as classificações internacionais ATEX e IECEx (Zona 0, 1 ou 2), e, no Brasil, também com certificação INMETRO compulsória, conforme a Portaria Inmetro nº 115/2022.
Como escolher a solução certa para a sua operação?
“Tudo começa no projeto. Se o sistema não for bem desenhado, com estudo de cobertura acústica, atenção às normas e às integrações necessárias, a operação fica comprometida”, diz Belmiro Duarte.
Entre os problemas mais comuns encontrados em campo estão:
- locais com deficiência sonora, que acabam gerando adaptações e manutenção precoce;
- zonas de alto-falantes mal distribuídas, como áreas públicas na mesma zona dos dormitórios, o que prejudica o descanso da tripulação;
- sistemas limitados por obsolescência ou falta de capacidade de expansão.
Na maioria dos casos, a origem não está no equipamento em si, mas em decisões tomadas, ou não tomadas, ainda na fase de projeto.
A tecnologia mais avançada nem sempre é a mais adequada. O que decide é se a solução foi pensada para a realidade específica da operação. Oito critérios, nessa ordem de avaliação, tendem a definir isso:
- ✓Ambiente de instalação: convés aberto, sala de máquinas, área de processo ou espaço confinado exigem soluções diferentes.
- ✓Nível de ruído: o equipamento precisa ser dimensionado para o ruído real do ambiente, não para uma média genérica.
- ✓Classificação da área: se há zona classificada, isso restringe qual equipamento pode ser instalado ali, ponto final.
- ✓Integração com o que já existe: um sistema novo precisa conversar com a infraestrutura em operação, não substituí-la por completo sem necessidade.
- ✓Redundância: o que acontece se um canal falhar? Um sistema crítico precisa ter resposta para essa pergunta.
- ✓Requisitos normativos aplicáveis: SOLAS para embarcações, NR-37 para plataformas em águas brasileiras, entre outros conforme o setor.
- ✓Certificações do equipamento: ATEX, IECEx e, no Brasil, INMETRO, quando a instalação envolve área classificada.
- ✓Suporte técnico e peças no Brasil: um equipamento importado parado esperando peça de fora é, na prática, um sistema desligado.
Onde a COMFOUR entra nessa conversa
A COMFOUR faz isso há 30 anos, do site survey ao retrofit. Apoia clientes finais, integradores e revendas a identificar a solução certa para cada ambiente, naval, offshore, óleo e gás, indústria e infraestrutura, com inspeção e suporte técnico contínuo.
Quer avaliar o sistema de comunicação da sua operação? Fale com a COMFOUR.
Falar com a COMFOUR → Este artigo abre uma série. Nos próximos textos, vamos aprofundar retrofit de sistemas legados, os requisitos práticos de PA/GA sob SOLAS e o papel de integradores e revendas nesse ecossistema.Perguntas frequentes
O que é PA/GA?
PA/GA é a sigla para Public Address and General Alarm: o sistema que transmite mensagens de voz e sinais de alarme em situações de emergência, integrando comunicação sonora e alerta em uma única infraestrutura, típico de embarcações e plataformas offshore.
Quais navios são obrigados a ter sistema de PA/GA?
- Embarcações acima de 500 GT
- Navios de passageiros, acima de 12 passageiros
- Navios de apoio offshore e carga em geral
- Unidades móveis de produção e perfuração offshore
O que muda entre um sistema de comunicação comum e um sistema de comunicação crítica?
Um sistema de comunicação crítica é projetado para funcionar sob estresse e falha de outros sistemas ao redor, com redundância, resistência às condições do ambiente e, em área classificada, certificação específica. Um sistema comum é pensado para o uso do dia a dia; o cenário de crise nunca entrou no projeto.